Studio Zwartlicht (https://studiozwartlicht.nl/)

Nascido na aldeia de Croca, em Penafiel, aos 18 anos Miguel Martins mudou-se para a Invicta. Terminada a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Variante de Estudos Franceses e Alemães), na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, deu por si, primeiro, a trabalhar num call center e depois como rececionista numa residencial. Contas pagas, ao fim do mês, o dinheiro era sempre muito pouco. Foi, então, que com 23 anos, tomou uma decisão. Demitir-se. Três dias depois estava nos Países Baixos à procura de trabalho. Ao fim de um mês, encontrou o seu primeiro emprego em Amesterdão. Em entrevista ao Notícias de Penafiel, Miguel Martins fala do seu percurso de vida e da sua mais recente experiência, na qual está completamente empenhado: o concurso Mister Senior Netherlands, onde é finalista e cujo resultado se saberá já no próximo dia 17 de Junho.

 

É Penafidelense, mas vive nos Países Baixos há vários anos. Que idade tem e desde quando se mudou para aí?
Nasci em Penafiel, na freguesia de Croca, onde vivi até aos 18 anos. Nessa altura, iniciei os meus estudos universitários e fui viver para o Porto. Mais tarde, com 23 anos, decidi sair de Portugal para vir morar nos Países Baixos. Neste momento, tenho 35 anos.

 

 A razão da sua mudança foi por vontade própria ou porque em Portugal não conseguia a estabilidade económica e profissional que desejava?
Depois de concluir os estudos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, não consegui encontrar trabalho dentro da minha área de especialização. Comecei por trabalhar num call center, seguido de uma curta experiência como rececionista numa residencial. Apesar de ter gostado de trabalhar como rececionista, as condições eram muito precárias e o salário demasiado baixo. Uma vez pagas as contas fixas, como a renda do apartamento, eletricidade, etc., não me restava dinheiro sequer para comer. Dei por mim a querer comprar um pão e não ter dinheiro suficiente para o fazer, apesar de trabalhar arduamente. Foi nessa altura que decidi que não podia continuar nessa situação. Eu sabia que tinha de agir rapidamente, pois se pensasse demasiado sobre o assunto acabaria por perder a coragem de sair do meu país, deixando aí todos os que me são queridos. Demiti-me e passados três dias estava nos Países Baixos à procura de trabalho. Vim com muito pouco dinheiro, sem quaisquer garantias de que iria encontrar trabalho facilmente, mas com uma determinação e uma vontade de trabalhar enormes. Ao fim de um mês consegui o meu primeiro emprego, em Amesterdão.

 

Porquê os Países Baixos? Tinha algum vínculo com esse país – familiar ou de amizade?
Os meus vínculos com os Países Baixos eram muito poucos, nessa altura. De início, e visto ter uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Variante de Estudos Franceses e Alemães), os primeiros países que me ocorreram foram a França e a Alemanha. Porém, uma vez que também tinha estudado um pouco de Neerlandês (o idioma oficial dos Países Baixos), nos meus últimos anos de curso, achei que não seria uma má ideia viver neste país, durante algum tempo, para aperfeiçoar as minhas habilidades linguísticas e enriquecer o meu currículo. E foi exatamente isso que aconteceu.

 

O que faz profissionalmente?
Há já vários anos que tenho a oportunidade de trabalhar na minha área de especialização como tradutor e revisor na Medtronic – empresa líder, a nível mundial, na área de dispositivos médicos. Além disso, nos dois últimos anos tenho tido o enorme prazer de trabalhar como ator e modelo fotográfico /comercial, tanto nos Países Baixos como na Bélgica.

Encontra-se na lista dos finalistas do Mister Senior Netherlands. Quer contar-nos como tudo começou?
Nos últimos dois anos, as ofertas de trabalho como ator e modelo fotográfico/ comercial têm vindo a aumentar. Quando tomei conhecimento do concurso Mister Senior Netherlands, pareceu-me uma excelente oportunidade para me dar a conhecer melhor e possivelmente conseguir ainda mais ofertas de trabalho nestas áreas.

Quem o incentivou? Como teve conhecimento do concurso?
Como na maioria das minhas experiências na vida, a motivação partiu de mim. Vi este concurso como uma excelente oportunidade e não pude deixar de a aproveitar. Tomei conhecimento do concurso num website, ao qual acedo regularmente para me candidatar a ofertas de trabalho como ator e modelo.

 

Há mais estrangeiros a participar no concurso?
No início, há cinco meses, havia mais um concorrente internacional, proveniente da Síria e que veio morar nos Países Baixos como refugiado. Infelizmente, esse concorrente, entretanto, desistiu da competição. O que significa que, neste momento, sou o único participante estrangeiro.

 

Sendo português, sente alguma espécie de dificuldade acrescida ou tudo tem decorrido de forma natural?
Até ao momento, tudo tem corrido melhor do que eu poderia ter imaginado. Desde o primeiro casting, não houve um único dia em que não tenha trabalhado para o grande título e já colhi muitos frutos deste esforço contínuo. Independentemente da minha qualificação na final, sinto que já excedi, em muito, os meus objetivos ao candidatar-me a esta competição.

 

Quando terá lugar a final? E quantos são os finalistas?
A final realiza-se muito em breve, no dia 17 de Junho. Atualmente, somos nove finalistas. Havia mais, mas entretanto desistiram.

 

E o que falta fazer até lá?
Este foi um esforço de cinco meses de preparação, pelo que a maior parte do trabalho está feita. Até à final, teremos mais ensaios para as rotinas a apresentar em palco. Da minha parte, continuo ocupado diariamente com entrevistas e artigos para diferentes partes do mundo. Falta-me, ainda, escolher as roupas para uma das passagens de modelos.

 

Que tipo de preparação fez para participar no Mister Senior Netherlands?
Ao contrário de outros deste género, o Mister Senior Netherlands não se trata apenas de um concurso de beleza, mas também de personalidade. Para me preparar, segui um curso intensivo de vários dias em Técnicas de Apresentação que me ajudou a melhorar a comunicação verbal e não-verbal. Aprendi habilidades como, por exemplo, estar em palco sendo eu mesmo (o que é diferente de dar vida a uma personagem no meu trabalho como ator) e a responder a perguntas difíceis, o que me será muito útil, na fase de perguntas, na final, e que já me ajudou bastante na fase de pré-avaliação. Além disso, diariamente, investi horas a prover-me a mim e ao concurso ao escrever artigos para o mundo inteiro e preparar um vídeo promocional profissional. Além disso, vou regularmente ao ginásio para me manter em forma para a final. Também investi muitas horas na preparação de uma prova de talento que já apresentei ao júri. O vencedor dessa prova também será anunciado durante a final do concurso.

 

Qual é o valor do prémio e o que pretende fazer com ele, caso seja o vencedor?
O valor do prémio não nos foi revelado. Só na final é que ficaremos a saber. Mas isso não me importa minimamente, pois o prémio monetário nunca foi a minha motivação. O que me interessava era conseguir mais visibilidade para poder ter mais ofertas de trabalho, partilhar a minha história pessoal com o mundo e inspirar pessoas a atreverem-se a sonhar, a darem o seu melhor em tudo o que fazem e a nunca permitirem que ninguém lhes diga que não são capazes de algo. Sinto que já fiz aquilo a que me propus e não poderia estar mais satisfeito. Vencer significaria que eu continuaria a ter uma plataforma para continuar a fazer tudo isto, mas estou preparado para o pior dos resultados.

O seu futuro passa por continuar a viver nos Países Baixos ou pensa regressar a Portugal?
Essa é uma pergunta que me colocam constantemente. Quando vim morar nos Países Baixos, a minha intenção era ficar aqui uns três, cinco anos, juntar algum dinheiro e regressar a Portugal com uma situação económica confortável. Mas eu saí de Portugal em 2006, antes mesmo da crise começar oficialmente, e a situação foi piorando ao longo dos anos. Por isso, acabei por ficar. E tem sido uma experiência de vida muito enriquecedora. Apesar de sentir uma falta enorme das pessoas que ficaram em Portugal e do nosso clima fantástico, também me sinto em casa nos Países Baixos. É um país que me tem dado muitas oportunidades. Não sei se ficarei aqui para sempre ou se regressarei um dia, nem é algo que eu queira planear. Neste momento, sinto-me bem aqui, mas quem sabe o que o futuro me reserva?

Isabel Damião (texto)