Ricardo Luís Campos, Penafidelense, pianista, compositor e maestro, será o mais jovem maestro de sempre a dirigir para o Papa Francisco. Quase desconhecido por Penafiel, eleva já bem alto o prestígio do nosso Concelho e País pelo mundo.

Como nasceu o gosto pela música?

O meu gosto pela música nasceu muito cedo. Penso que o facto de ter nascido numa família onde a maioria das pessoas estudou música ajudou para que este gosto fosse cultivado e aprimorado. Além disso, tive a oportunidade de, aos 6 anos, iniciar os meus estudos na música. Desde então esse gosto foi crescendo, até que decidi que era este o caminho profissional que queria percorrer.

Qual o seu período histórico (de ponto de vista artístico) predilecto?

Na verdade, não tenho um período histórico preferido. Todos se manifestam de formas diferentes, dentro do contexto sociocultural presente em cada período. Com isto quero dizer que nenhuma demonstração de arte será mais válida que outra apenas pelo período histórico que ocupou, mas sim pela qualidade presente. Assim posso afirmar que os meus compositores preferidos vão desde a Idade Média até à atualidade!

Pianista, compositor e maestro: qual a vertente preferida?

Embora todas sejam vertentes muito importantes para mim, dentro das três, certamente que a que mais gosto é a da direção. Consegue realizar-me como nenhuma outra consegue.

Quais os pontos altos da sua carreira (ainda inicial visto que é ainda muito jovem)?

Embora a minha carreira esteja ainda numa fase inicial já tive várias oportunidades para demonstrar o meu trabalho, contando com concertos em Portugal continental e ilhas, bem como na cidade de Londres. Guardo com especial carinho estes últimos concertos em Londres, mas sem dúvida que o que mais me realiza como profissional é todo o trabalho que tenho vindo a desenvolver nos últimos anos em Penafiel, bem como, desde o ano passado, ao serviço do Santuário de Fátima.

Como avalia o ambiente cultural que se faz sentir, atualmente, no país e em Penafiel?

Penso que já percorremos um caminho muito bom no sentido de melhorar a cultura do nosso país, mas sabemos que ainda há muito a desenvolver, por forma a sermos cada vez melhores.

No âmbito mais concreto da cidade de Penafiel, sendo esta uma cidade com muitos artistas jovens de imensa qualidade, e aproveitando a oportunidade para congratular a nossa Câmara Municipal pela vitória do galardão que distingue o Município pela qualidade e dinamização de atividades culturais, penso que temos, agora, mais do que nunca, a obrigação de dotar a nossa cidade de espaços e condições para que todos possamos, cada vez mais, assistir a uma programação cultural de excelência em espaços adequados.

Como se sente ao ser o mais jovem maestro a dirigir para o Papa Francisco?

É, sem dúvida, uma honra! Dirigir o Coro do Santuário de Fátima na celebração do Centenário das Aparições será, por si só, uma experiência marcante e inesquecível; a presença do Papa Francisco acresce a honra e a responsabilidade. Como pode imaginar, liderar toda a equipa neste momento tão único é muito gratificante. Quanta sorte tenho em ter a melhor equipa do mundo a trabalhar comigo!!!

O facto de ser “o mais jovem maestro” é motivo de orgulho, não só para mim, mas para todos os jovens que lutam por um futuro musical melhor. Bem sabemos que, muitas vezes, falta a confiança nos novos talentos e nem sempre se dá espaço para os jovens mostrarem o melhor que podem e sabem fazer.

Como avalia as oportunidades de trabalho, na sua área, existentes em Portugal?

Em Portugal, de facto, não há muito lugar para os músicos profissionais, muitas vezes por nossa própria culpa. Contentamo-nos com o amadorismo, que, sob a aparência de bem, está a sobrepor-se ao profissionalismo.

Começa a ser tempo de mudar mentalidades, para que o futuro dos nossos jovens, especialmente os ligados às artes, não tenha que ser sujeito, obrigatoriamente, à emigração.

O gosto dos portugueses pela música mais erudita tem evoluído favoravelmente?

Já começamos a assistir a um maior interesse, por parte dos jovens, pela música mais erudita. Logicamente que este interesse tem que ser cultivado, e cabe-nos essa responsabilidade de fazer com que, cada vez mais, as salas de concerto encham. Penso que o desenvolvimento do interesse pelas artes, e em especial pela música, ajudará a construir uma sociedade melhor.

Como avalia o destaque dado pela comunicação social, em Portugal, aos feitos alcançados no campo das artes? Considera que o feito de dirigir para o Papa Francisco seria merecedor de maior destaque por parte da mídia nacional?

Como se costuma dizer “Os aviões só são notícia quando caem; mas há muitos a voar”. Infelizmente, vivemos ainda no tempo do adágio: uma boa notícia, não “apenas” uma notícia”. Assim, as artes têm pouco destaque na comunicação social, visto que não fazem parte dos dramas a que os blocos noticiosos nos vão habituando. Não penso que o meu trabalho devesse ser mais divulgado pelo facto de dirigir para o Papa. Penso sim que o meu trabalho, bem como o de todos os meus colegas músicos, deve destacar-se pelo valor que tem em si mesmo e não pela circunstância onde é exercido.

Quais os seus projetos para o futuro?

Mesmo sendo muito novo e tendo muitos sonhos por concretizar, foco-me no momento presente e em todos os projetos que tenho em mãos, pois é exactamente com a qualidade que apresentamos “hoje” que vamos construir o “amanhã”. Assim, o meu desejo é que o meu futuro passe sempre por fazer o que mais gosto. Penso que quem consegue fazer o que realmente gosta e viver dessa mesma profissão, é uma pessoa feliz.